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Chagas: um terço dos doentes têm problemas cardíacos

Quando o trypanosoma cruzi se instalou no ‘músculo da vida’, teve início a descoberta, tardia, da enfermidade. Tudo começando com um “cansaço estranho”, podendo chegar à necessidade de transplante. Nonato, que ninguém chama pelo nome de certidão (Raimundo Freire Araújo), descobriu que tem a doença de Chagas e muitos amigos Foto: Melquíades Júnior

A hora do almoço é sagrada com a família de Nonato ao redor da mesa. Só deixou de ser calma. A dificuldade que antes era colocar comida em casa hoje é levá-la até o estômago: a mão segura firme a colher, que cavouca o prato, suspende um punhado de feijão. A cabeça se inclina para frente, como que em reverência à comida. Na boca, esmaga o máximo possível até virar uma pasta úmida. Come feito um alpinista que espera, sem pressa, chegar ao topo.

A língua empurra para trás, e nessa hora, mentalmente, Nonato pede a Deus que desça. Toma um punhado de água, e pede a Deus que desça. Sente o alimento pelo esôfago, e pede a Deus que não volte. Mal volta a remexer o prato e vem uma tosse com arrotos. Mesmo em casa, e com os seus, a vergonha lhe sobe à cabeça e o faz levantar.

– Fica, pai. Não tem problema. Aline, a filha mais nova, está constrangida com a vergonha do pai dentro de casa. Não adianta. Vai para o fundo da casa buscar um balde para aceitar o vômito. É sempre assim, o dia todo, todo dia. A gratidão da comida se mistura à angústia do comer. Seu almoço acabou ali.

Começou a investigação do que seria aquilo, já suspeitando problema no estômago. Gastroenterologista é nome tão difícil quanto encontrar um em Icó, no centro-sul do Ceará, onde mora. Mas não era só isso: cansava mais cedo que o normal, como se a enxada pesasse mais.

À noite, já não acompanha mais, deitado na rede, o Jornal Nacional depois do jantar. O corpo pesa. Ele não vê, mas já ronca alto, e ronco deixa de ser um problema quando é silenciado do nada. Iraci, então, encosta no marido. Não sente respirar, mas o coração bate. Depois, como quem emerge da água, o homem recobra em alvoroço o ar que lhe faltava.

– Nonato, ontem você parou de respirar.

– Será?

Na noite seguinte acontece de novo. Iraci pega o celular e começa a filmar. Catorze, quinze, dezesseis – conta os segundos mentalmente e já se preocupa com a demora – dezessete… O pulmão do homem infla, mais uma vez, como quem sai de um mergulho. Iraci, que acompanha tudo, respira aliviada.

Ali o mar era a dúvida, só resolvida dias depois quando sai o exame: o coração está crescido. A suspeita termina com exame de sangue, que identificou reagente para trypanosoma cruzi. O protozoário parasito responsável pela doença de Chagas até hoje incurável.

Para Nonato, a pior notícia não é essa, vem depois: vai ter que largar a enxada. Justo aquilo para que nasceu. Não fazia muito, tinha vendido a casa da cidade depois de construir outra num sítio mais afastado, que pudesse plantar, criar, comer. A enxada é como o pincel para o pintor, a caneta para o escritor, a ferramenta de autonomia para o homem de 58 anos, magro e de pele queimada do sol. Pois não tem autonomia maior do que plantar o que come. Agora, não bastasse a dificuldade de digerir, o agricultor deixaria de roçar. “O médico me tirou de tudo. E ela é a fiscal de mim”, diz, apontando para a esposa Iraci Dantas, 54, vestida sempre com saia ou vestido, o cabelo amarrado para trás, olhos vivos e voz firme. Se ele pega um balde d’água, já ordena: “solte isso aí”.

Perdas das irmãs

Fiscaliza o marido de dia – avisa a hora do remédio – e de noite enquanto dorme. Acaba dormindo depois. Chorou muito quando soube da doença. Não porque duvidasse do médico quando disse que ele poderia viver muito tempo, mas Chagas tornou-se um infeliz quase sobrenome na família Araújo, que já levou duas irmãs de Nonato: Lúcia, que morava em São Paulo e ainda viveu 10 anos com um coração transplantado; e Milda, no Ceará, descobriu de repente e viveu dois anos de tratamento. E mesmo que isso não ocorra em nem um terço dos pacientes chagásicos, ambas tinham o coração crescido.

Mas a preocupação de Iraci esbarra na calma do marido:

– Seja o que Deus quiser. Vamos fazer o que tiver de fazer.

Muita coisa mudou na vida do agricultor. Os filhos estão crescidos. Amanda tem 31, Rafael está com 26 e Aline tem 22. Filho, para os pais, não ganha maioridade. Mas o tempo, contudo, é senhor da aceitação. Sabendo da dedicação da esposa, e ausente da roça, ele tenta ser útil dentro de casa. Acorda cedo, faz o café e leva para a esposa na cama.

“Ela passa o dia trabalhando, cuida de mim, tenho que retribuir”. Com a descoberta da doença, vieram outras revelações. Recebe mais visitas em casa. Querem saber como está. Uns chegam com palavras, outros somam a elas cesta básica, e tem quem leve dinheiro para ajudar nos remédios. Nonato, que sempre fez de tudo pra não pedir nada a ninguém, aceita sem jeito, mas agradece. Não que pensasse em rejeitar, mas por achar que não merecesse tanto. Não eram amigos só os amigos, mas os conhecidos, alguns de trocarem poucas palavras. E até desconhecidos. A doença reuniu todos.

Novos amigos

– Eu não sabia que era querido assim, Iraci.

– Também, onde tu chega é conversando, pega amizade com o povo todo.

A conclusão foi concordar: “Eu não me sinto mais que ninguém. Não me sinto que seja mais que um animal. Tem gente que mexe com um bêbado na rua, mas não pode isso. Tem que respeitar. A gente agradece muito a Deus. Me ajoelho com tudo isso que tá acontecendo. Vou ficar feliz, não vou é ficar triste”.

A medicina do coração é o avesso da Chagas, tamanhos avanços: Carvedilol, Metoprolol, Bisoprolol, Enalapril, Captopril, Ramipril, Espironolactona, Furosemida. Doença de Chagas só tem Benzonidazol.

Quando desperta às 5h30, Nonato toma as primeiras medicações, põe a água do café no fogo e olha para fora. A laranjeira florando no sítio (“o rapaz não tá aguando direito”), manga, limão e acerola murchando nos pés pela falta do agricultor. Tem saudades da roça, mas vai fazer o que o doutor disse. “Deus vai dar sabedoria aos médicos”.

Passado mais de um ano da descoberta da doença de Chagas, hoje tenta viver melhor os dias. Ainda tem vômitos com frequência, e qual a relação? Embora não chegue a 10% dos casos, a doença é uma das mais frequentes causas de disfagia esofágica. Um comprometimento das contrações do esôfago. Por isso, ainda rejeita todos os convites para almoçar na casa dos amigos. “Eu penso que ninguém vai se sentir bem eu assim”.

E já que não pode mais ser senhor de suas plantas, tenta, dentro de casa, abrir mais as portas para que lhe visitem, e cultivar – “feliz, não triste” – outra forma de viver. Passou a perceber que antes do coração crescido, também chamado cardiomegalia, já tivesse o coração grande.

Fonte: Diário do Nordeste

Postado: Pelo repórter Michel Dantas do site caririverdade.com

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