Educação é refém da violência na Capital

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Resiliência s.F. Fig. – capacidade de se recobrar facilmente; de se adaptar à má sorte ou às mudanças.

A palavra que teve origem em uma propriedade da Física, relativa a objetos e suas formas, tornou-se característica de gente. De pele, osso, força e vontade, quadra que resume o cotidiano de professores, estudantes e funcionários de escolas em zonas de conflitos entre facções em Fortaleza. Nesses espaços, como relatam os profissionais ouvidos aqui – todos com identidades preservadas, por segurança, em nomes fictícios -, ser resiliente é requisito mínimo para driblar a violência sem cair. Sem permitir que a guerra mate o ensinar e o aprender, constantemente atingidos à queima-roupa.

Há batalhas, porém, em que não é possível vencer, como lamenta a professora Sílvia, docente de uma escola municipal na comunidade Babilônia, no bairro Barroso II, Regional VI da Capital. “Eu tive alunos que não puderam concluir o ano, foram proibidos de fazer a travessia de um lado para outro do bairro, impedidos de ir à aula. Muitas famílias se mudaram”, relata, contabilizando que, somente em dezembro de 2017, cinco crianças perderam o ano letivo porque “não podiam ser levadas pelos pais à escola”.

Rotina

A violência, que já é rotina no entorno – “tiroteios, execuções em plena luz do dia, por alguém entrar na rua com os vidros fechados” -, relata a professora, cruza os muros da escola em forma de tensão, afetando a assiduidade de alunos e docentes. “Alguns não vão trabalhar, faltam, pegam atestado. ‘Tenho amor à minha vida’, eles dizem. Nos alunos, isso gera revolta, porque eles entendem o motivo de estarem faltando aula”, lamenta Sílvia, que encontra alívio nas “rondas que a Polícia Militar tem feito” na comunidade e nas relações que estabelece com os alunos quando o vínculo mostra-se possível.

Uma realidade consonante é vivenciada por Daniel, professor de uma escola municipal na Barra do Ceará, na Regional I, onde uma das facções mais presentes, segundo revela, é a autointitulada “Guardiões do Estado”. “Lá quem manda é a GDE. Quando eles querem, chegam e dizem: ‘ó, não vai ter aula aqui não’, e a direção precisa fechar as portas. Na época em que os alunos faltam porque não podem aparecer, a gente cria uma estratégia para que façam provas em casa”, afirma Daniel, que, em 2017, perdeu “17 alunos envolvidos no crime”, conforme contabiliza. “Infelizmente, todo mundo é coagido. Não tem ninguém que consiga dar aula seguro, sem medo”, lamenta.

A mudança na dinâmica de ensino, efeito da divisão de territórios, é sentida ainda em outro ponto da cidade: o bairro Bom Jardim, na Regional V, onde a professora Regina dirige uma instituição municipal.

Vínculo

“No fim do ano passado, 34 alunos ficaram proibidos de ir à escola. Precisamos nos adaptar: os professores não colocam faltas, e tentam repor as atividades quando os estudantes voltam”, garante a diretora, observando ainda que “alguns alunos, por serem carentes financeiramente, já têm problemas de motivação”, fator que “torna os desafios enormes”.

Conforme o pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência (LEV) da Universidade Federal do Ceará (UFC), Leonardo Sá, os prejuízos da violência à educação enfraquecem um tripé importante: a relação escola-família-comunidade. “Toda essa situação é horrível para uma integração fundamental do ponto de vista educacional, mas quebrada pelas territorialidades. Isso traz prejuízos a curto e médio prazos, principalmente para as crianças e os adolescentes que têm a formação escolar impedida”, preocupa-se o sociólogo, apontando, ainda, para “deficiências” nas tentativas de resolver os problemas.

“A presença das facções inibe a atuação universal das políticas públicas, porque gera uma seletividade: quem pode e quem não pode estar em determinada área? Não são os especialistas, em reuniões fechadas, que vão resolver isso, mas a participação das famílias, das pessoas”, conclui.

Para o pedagogo e coordenador de disciplina escolar Cláudio Domingos, os processos de ensino e aprendizado são reféns, ainda, de fatores além das territorialidades impostas pelas facções: eles esbarram nas desigualdades de uma cidade fragmentada por Índices de Desenvolvimento Humano (IDHs). “A exclusão social por questões econômicas demanda uma busca do jovem por outras oportunidades. A que vier mais facilmente à mão, ele vai pegar – como aderir a essas facções. Isso gera não só violência física, mas atos de várias outras naturezas”, analisa o profissional.

Os resultados dos atos violentos no ambiente escolar, apesar de constantes nos relatos de quem os vivencia, não constam em relatórios oficiais, de acordo com a Secretaria da Educação (Seduc).

Diálogo

A Pasta ressalta, porém, que medidas de formação e promoção do diálogo são aplicadas no intuito de reverter o cenário, como o Projeto Professor Diretor de Turma, que “busca evitar a evasão e contribuir para a formação dos alunos enquanto cidadão”, e a Célula de Mediação Social e Cultura de Paz, aplicada, atualmente, em quatro escolas estaduais, com previsão de expansão para outros 20 municípios cearenses.

Outra iniciativa, parte do “Pacto por um Ceará Pacífico”, é o Fórum de Escolas pela Paz, que, de acordo com a professora Regina, “fortalece as escolas e consegue até facilitar transferências quando os alunos não podem permanecer em determinada instituição”. A coordenadora territorial do programa no Bom Jardim, Pedrita Viana, reconhece que a atuação das facções “é uma ameaça velada e que existe”, mas ressalta que o dever do Fórum “não é investigar nem apurar os crimes”.

“Nós trabalhamos as mortes, o bullying, as fronteiras entre periferia e centro, além de ofertar cursos e atividades culturais. Tentamos manter na escola num ambiente agradável, que cumpra seu papel educacional e de formação humana e profissional, mas que também seja um lugar de lazer e de afetos”, acrescenta.

Questionada sobre as ações realizadas em escolas municipais da Capital – onde, de acordo com professores e diretores, a influência das facções se mostra ainda mais forte – a Secretaria Municipal de Educação (SME) não se pronunciou até o fechamento desta reportagem.

Prevenção

A segurança nas unidades da Capital é reforçada pela Inspetoria de Segurança Escolar da Guarda Municipal (GMF), que “realiza patrulhamentos e faz permanências nas escolas, principalmente nos horários de entrada e saída dos alunos”. Além das rondas, “é realizado um trabalho preventivo sobre cultura de paz e práticas restaurativas para toda a comunidade escolar”, como declara o órgão, em nota.

No âmbito estadual, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) informou, também por meio de nota, que “realiza a territorialização das equipes policiais em comunidades onde existam maiores incidências de crimes”, intensificando os trabalhos “com ações sociais de vinculadas, como a Divisão de Proteção ao Estudante (Dipre) da Polícia Civil do Ceará e do Programa Educacional de Resistência às Drogas (Proerd) da PMCE”.

“Escolas devem ser espaços de retomada”

Resistir, manter-se firmes ainda que cercados por cenários de turbulências, é o desafio constante para estudantes, professores e demais profissionais que frequentam as escolas situadas entre comunidades em conflito. É preciso manter as colunas fincadas no solo, consertar com zelo as rachaduras e, sobretudo, reforçar os alicerces. “As escolas não podem entrar na onda e se assemelhar a prisões, lugares isolados, onde só se entra com revista. Assim, as facções vencem e dominam, e a cidadania perde”, avalia o sociólogo e pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência (LEV) da Universidade Federal do Ceará (UFC), Leonardo Sá.

Para o professor, a rendição ao medo fortalece a atuação das facções no ambiente escolar, uma vez que “os adolescentes recrutados para o tráfico passam a dominar as escolas e estabelecem uma relação de poder e superioridade em relação aos colegas”. “A escola perde a centralidade e os conflitos vão para dentro dela. A presença das facções massacra a vida das pessoas e a relação de comunidade, e isso piora a qualidade de vida do lugar”, ressalta.

Outro problema que, conforme o sociólogo, é um dos principais a cercar as instituições de ensino públicas e corroborar para a quebra de vínculos educacionais é uma suposta “cultura de punição” voltada aos docentes, durante o direcionamento para onde devem atuar. “Não podemos enviar a esses lugares complexos, com condutas violentas, profissionais que estão sendo ‘punidos’. Os melhores educadores é que deveriam ocupá-los, mas estes acabam fugindo dessas localidades para outras ditas tranquilas, livres dessas situações. Isso gera uma desigualdade, porque os estudantes percebem profissionais sem compromisso e se revoltam, se sentem excluídos. É uma atitude criminosa”, critica Leonardo Sá, descartando, porém, uma generalização.

Uma estratégia para reverter o quadro, aponta o especialista, é tornar a escola um ambiente cada vez mais atrativo aos jovens, tarefa que deve integrar profissionais, famílias e estudantes. “A retomada precisa ser a partir da escola. Se você tem um ambiente que não é uma prisão, mas sim uma escola de verdade, com ensino e atividades respeitados, isso tem um grande poder. A escola transforma as relações do lugar”, conclui Leonardo Sá.

Postado: Pelo site caririverdade.com

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