Campeã paralímpica vai escolher a data de sua morte por eutanásia: “Não quero mais sofrer”

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Internada em Bruxelas, Marieke Vervoort dá entrevista exclusiva ao jornal The Telegraph e relata momentos de sofrimento com o avanço da doença; data da morte assistida ainda não foi definida.

Campeã olímpica em Londres 2012, medalha de prata nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro e dona de uma carreira brilhante como velocista na classe T52. Marieke Vervoort está internada no Hospital Universitário de Bruxelas, capital da Bélgica, e se prepara para pôr um fim em sua vida. Ela sofre de doença degenerativa que paralisa as suas pernas, provoca desmaios e não a deixa dormir por mais de 10 minutos. Nos últimos meses, ela tem mais dias ruins do que bons. Em entrevista exclusiva ao jornal britânico The Telegraph, a belga relatou como estão momentos antes da eutanásia -, que ainda não tem data marcada para acontecer.

– Não quero mais sofrer. Está muito difícil para mim agora. Eu estou cada vez mais deprimida. Eu nunca tive esses sentimentos antes. Eu choro muito. Agora, até a minha visão está desaparecendo. Um oftalmologista e disse que não havia nada que ele pudesse fazer, porque o problema estava vindo do meu cérebro. Então, um neurologista ficou comigo toda a noite enquanto eu tinha um espasmo após o outro. Ele disse que não era uma crise epiléptica, mas apenas o corpo gritava: “Estou com tanta dor. Estou acabada”.

Marieke acaba de publicar sua autobiografia, um relato de como uma jovem é traída por seu corpo e ainda ganhou quatro medalhas paralímpicas, para não mencionar aclamação como a segunda figura esportiva da Bélgica, atrás do Kevin de Bruyne, do Manchester City. Ela espera que em breve seja traduzida para o inglês, porque, como diz ela, ela quer usar o esporte “para inspirar o maior número possível de pessoas”. Sonhava em ser professora de esportes e sua exposição através dos Jogos Paralímpico lhe proporcionou uma plataforma poderosa.2016-09-17t142304z_442963972_ht1ec9h13y2d4_rtrmadp_3_paralympics-rio-athletics

Cada detalhe de sua morte já foi precisamente coreografado. Ela escreveu cartas personalizadas para cada pessoa com quem ela se importa, carimbada e endereçada, para ser lida quando chegar o momento. Ela sugeriu que sua passagem seja marcada pela abertura de uma caixa vermelha, da qual as borboletas brancas são liberadas. Uma coisa é certa: o funeral não será em uma igreja. Como ela disse: “Se houver um Deus, deve ser um cara ruim para me punir desse jeito”.

– Não consigo dormir à noite. Minha psicóloga sabe disso. Eu quero que ela esteja comigo quando eu morrer. Ela trabalha no hospital, mas até ela diz: “É muito o que você está passando. Eu nunca vi nada desse tipo.’”

Marieke tem 38 anos, mas diz que se sente com 90. Em um momento ela era uma adolescente flexível e ativa, que gostava de basquete, triatlo e mergulho profundo, ela notou os sinais de alerta quando desenvolveu infecções repetitivas no tendão de Aquiles, que cresceu tanto que teve que andar nos dedos dos pés. Logo depois, ela só podia se mover com a ajuda das muletas. Então suas pernas pararam de funcionar completamente. Ela está sendo destruída fisicamente de baixo para cima. Médicos especulam que a paralisia é desencadeada por uma deformação entre a quinta e sexta vértebras cervicais, mas não conseguem explicar a dor associada a ela.

– Se eu quiser alguma coisa, vou atrás disso. Nunca desisto facilmente. Eu não queria aceitar que eu iria acabar em uma cadeira de rodas. Mas em 2000 eu não consegui mais fazer isso, embora ainda pudesse usar meu estômago e meus músculos nas costas. Agora estou paralisada até meus peitos. Minha função de dedo também está indo para baixo. Eu tenho um coração tão forte, mas a medicação para dor não está mais fazendo efeito. Eles me deram tantas injeções que tudo está quebrado e difícil. Às vezes, o líquido entra e volta diretamente.2016-09-17t142253z_919299043_ht1ec9h13xtd1_rtrmadp_3_paralympics-rio-athletics

Vervoort tenta incentivar a discussão sobre a ética da morte assistida. A Bélgica tem as leis de eutanásia mais liberais do mundo, mas ainda assim eles exigem que três médicos diferentes concordem que o paciente está em estado de dor insustentável e incurável. Vervoort já passou deste ponto há muito tempo. O acordo é encerrar com sua vida por injeção letal, das mãos do Dr. Wim Distelmans, e ela também tem a liberdade de escolha para morrer pacificamente e no momento em que decidir.

– Eles o chamaram no começo do “médico do assassinato “, mas ele salvou minha vida. Se ele não estivesse aqui, eu teria me matado. É tão difícil estabelecer uma data. Sempre que faço, eles dizem: “Você tem certeza, Marieke? Você está realmente certa? ‘”

A data está se aproximando. Seu pai, Jos, professor aposentado de direito tributário disse durante a entrevista:

– Estamos perto. Ela não consegue comer mais. Tudo o que ela pode lidar é pudim. O fim está chegando. Ele mede suas palavras cuidadosamente, sem qualquer desespero. Ele parece muito, muito cansado.

Depois de uma breve operação, Vervoort voltará para casa em Diest, uma pequena cidade a cerca de 40 quilômetros a leste de Bruxelas, para o Natal.

– Na véspera de Ano Novo, há um costume de comer 12 uvas, uma a cada segundo antes da meia-noite. Então eles liberam 1.000 balões de uma rede. Agora estou com medo de ir sozinha. Mas é o meu lugar favorito no mundo. Quero que minhas cinzas se espalhem no oceano lá.

Fonte: Globo esporte

Postado: Pelo site caririverdade.com

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